Tudo sobre a criptomoeda SUI

A comunidade que acompanha blockchains de alta performance adora histórias de bastidores, e Sui entrega justamente isso. Nascida de um pequeno grupo que trabalhava no finado projeto Diem dentro da Meta, a rede chegou ao mercado em maio de 2023 prometendo throughput de seis algarismos, liquidação estável em tempo real e uma pegada bem amigável para games e aplicativos de consumo.

Quem vivia o mercado naquela época lembra que o lançamento foi visto como uma tentativa ousada de disputar protagonismo com gigantes como Solana e o recém-chegado Aptos, algo que elevou a expectativa sobre cada detalhe do projeto.

Depois de dois anos completos em produção, Sui já não é tratada como aposta exótica. O foco da rede continua sendo escalar experiências interativas, especialmente jogos, finanças sociais e comércio digital, sem sacrificar a familiaridade típica das antigas aplicações Web 2.

A arquitetura é baseada num modelo de objetos on-chain que podem ser manipulados em paralelo, o que permite dividir o trabalho entre validadores sem criar filas engessadas. É uma escolha de design que lembra um grande banco de dados distribuído, porém sem um servidor central, e explica por que transações simples podem ser finalizadas em poucos centésimos de segundo mesmo quando o fluxo de uso aumenta.

Propósito e área de atuação

Embora qualquer rede generalista possa hospedar contratos inteligentes, Sui se apresenta como um ecossistema pensado de forma quase obstinada na experiência do usuário final. Em vez de mirar apenas projetos de DeFi hardcore, a fundação por trás do protocolo incentiva desenvolvedores a construir jogos com ativos negociáveis, soluções de e-commerce com NFTs funcionais e plataformas que integrem tokens em experiências já populares fora do universo cripto.

O time costuma dizer que a missão é levar a posse digital adiante, algo que requer finalidade rápida, custo baixo e ferramentas de desenvolvimento que não afastem engenheiros acostumados ao mundo tradicional da programação. A escolha da linguagem Move reforça a ideia de segurança e de reuso de código, dois pontos críticos para quem precisa ganhar escala sem empilhar exploits.

Tecnologia por trás da rede

A peça central é o tal modelo “object-centric”. Em vez de tratar todas as transações como mudanças globais num livro-razão linear, o protocolo enxerga cada token ou ativo como um objeto independente. Isso libera os validadores para executar operações sobre objetos distintos ao mesmo tempo, já que não há risco de conflito.

O consenso Narwhal + Tusk garante que a ordem causal seja respeitada e, em tarefas mais complexas, o grafo acíclico direcionado (DAG) orquestra a confirmação sem travar o resto da rede. Em laboratório, o time divulgou picos acima de duzentas mil transações por segundo; em produção, números reais ficam na casa dos milhares, mas ainda assim competem com redes que rodam há bem mais tempo.

Utilidade do token e captura de valor

O ticker SUI tem quatro papéis básicos dentro do ecossistema. Primeiro, ele é o combustível que paga as taxas de execução e de armazenamento. Segundo, serve de colateral no sistema de Delegated Proof of Stake, garantindo segurança e alinhamento de incentivos. Terceiro, funciona como unidade de conta e meio de troca para aplicativos que nascem na rede. Por fim, dá direito a voto em propostas de governança, incluindo upgrades de protocolo e ajustes de parâmetros. Quando alguém roda uma transação, a taxa de gás vai para o pool de recompensas, que é distribuído entre validadores e delegadores após cada epoch.

Parte dessa mesma taxa entra no storage fund, um colchão que cobre custos de dados para validadores futuros e retira tokens de circulação, criando pressão deflacionária se o uso geral subir.

Para facilitar micro-pagamentos, o time introduziu o sub-denominador MIST, em que um bilhão de MIST equivale a um SUI. Na prática, o recurso evita casas decimais enormes ao exibir taxas minúsculas em exploradores e carteiras móveis.

O design da precificação de gás também foi pensado para diminuir surpresas desagradáveis: cada epoch começa com um preço-referência definido coletivamente pelos validadores, e usuários só acrescentam “priority fee” se quiserem pular a fila em momentos de pico. Essa estabilidade ajuda dApps a fazerem previsões e mantém a experiência próxima daquele clique que a gente conhece em aplicativos da Web 2.

Tokenomics em detalhes

O fornecimento total é limitado a dez bilhões de unidades, e essa cifra não muda. No lançamento da mainnet apenas 5 % estava em circulação. Ao longo de 2024 e 2025 ocorreram diversos unlocks programados, elevando o float para cerca de 3,25 bilhões de moedas, ou pouco mais de 32 % do total. A lógica de vesting combina cliff inicial para investidores, liberação gradual para equipe e fundação, além de um largo “Community Reserve” destinado a programas de grants, educação e liquidez.

A projeção oficial mostra que a maior parte do suprimento destinado a insiders termina de destravar entre 2027 e 2028, enquanto os tokens da reserva podem levar mais de uma década para entrar totalmente no mercado, sempre sujeitos a decisões da governança.

Esse ritmo relativamente calmo de liberação foi escolhido para reduzir choques de oferta, mas vale lembrar que cada evento de unlock vira assunto quente no Crypto Twitter e costuma mexer no preço dias antes. Na prática, boa parte dos tokens que saem do contrato de vesting acaba sendo recolocada em stake, já que as recompensas anuais giram entre 5 % e 8 % dependendo do volume de transações no período.

Como o storage fund também absorve parte das taxas, há momentos em que a quantidade líquida disponível no mercado cai, o que contrabalança a pressão de venda vinda dos desbloqueios.

Equipe por trás do projeto

Mysten Labs, estúdio que lidera o desenvolvimento, foi fundado em 2021 por Evan Cheng, Sam Blackshear, Adeniyi Abiodun, George Danezis e Kostas Chalkias. Todos trabalharam juntos no esforço da Meta para lançar o Diem e criaram a primeira versão da linguagem Move. Cheng passou pela Apple e chefiou engenharia de compiladores no Facebook, Blackshear é o autor original de Move, Danezis tem carreira acadêmica sólida em segurança distribuída, Abiodun cuidava de produto na Novi, e Chalkias é pesquisador reconhecido em criptografia.

Esse pedigree técnico atraiu rodada série B de trezentos milhões de dólares ainda em 2022, que avaliou a empresa em dois bilhões, além de parceiras com nomes de peso na indústria de jogos.

Vale notar que Mysten não controla sozinha a rede. A Sui Foundation, entidade sem fins lucrativos sediada na Suíça, detém uma fatia expressiva do supply e toca programas de grants, hackathons e bootcamps.

A governança on-chain, entretanto, ainda é relativamente centralizada em validadores ligados aos primeiros investidores, algo que a própria fundação diz querer suavizar conforme o mecanismo SIP-39 entre em vigor, reduzindo exigências mínimas para novos validadores ingressarem no set ativo.

Projetos concorrentes diretos

Comparar Sui sem citar Aptos é quase impossível, já que ambos saíram da mesma fonte de pesquisa da Meta e utilizam variações de Move. Aptos escolheu uma arquitetura levemente distinta, com consenso linear e finalização sub-segundo em cenários ideais. Ele se dá bem em DeFi institucional, integrando wallets compatíveis com bancos e custodians.

Sui, por sua vez, mostra números maiores de usuários ativos diários e TVL crescente graças a pools de liquidez voltados a games e NFTs, segundo relatórios recentes da Messari. O cenário lembra aquela rivalidade ETH versus Solana em 2021, só que reeditada no ecossistema Move.

Solana também aparece nessa lista, mas por motivos distintos. Seu consenso Proof of History empilha transações em sequência ultrarrápida, enquanto Sui opta pelo paralelismo baseado em objetos. Na prática, Solana leva vantagem em maturidade de tooling e presença institucional, porém exige hardware mais parrudo e sofreu alguns incidentes de estabilidade.

Sui, mesmo com TPS teórico maior, ainda corre para igualar a profundidade de dApps de seu rival. Relatórios independentes da Atomic Wallet e de analistas da Messari apontam que a principal disputa acontece em torno de novos jogos AAA e marketplaces de ativos colecionáveis. Quem atrair o próximo hit pode levar uma boa fatia do volume de negociações.

Há ainda blockchains emergentes que falam Move, como Movement e Supra, além de soluções focadas em alta frequência como Sei. Cada uma delas mira nichos específicos, mas todas concorrem pelos mesmos desenvolvedores que buscam segurança de linguagem e execução em paralelo.

A vantagem competitiva de Sui está no fato de ser a mais adiantada em termos de infraestrutura de APIs, pontes e kits de ferramentas em Typescript e Rust, reduzindo o atrito para quem vem do universo Web 2.

Desafios principais

O primeiro é sair do efeito “L1 flavor of the month”. O mercado de layer 1s está lotado; investidores lembram de 2021, quando dezenas de redes captaram bilhões e poucas sobreviveram ao inverno cripto. Sui precisa manter a cadência de lançamentos relevantes, principalmente em jogos e socialfi, para não virar paisagem.

O segundo é lidar com a pressão de unlocks: mesmo que a distribuição seja gradual, a simples percepção de diluição assusta quem olha preço no curtíssimo prazo. Um terceiro ponto envolve regulação. Como Sui Foundation controla recursos importantes, qualquer mudança em políticas de valores mobiliários nos Estados Unidos ou em mercados europeus pode limitar listagens ou aumentar obrigações de transparência.

Também há demandas técnicas. O paralelismo resolve gargalos, mas impõe desafio extra aos exploradores, oráculos e ferramentas de indexação que precisam reordenar eventos em tempo quase real.

Sem infraestrutura de leitura confiável, a experiência do usuário se deteriora e os desenvolvedores migram para ambientes mais simples. Por fim, a disputa por talento é feroz: Aptos, Solana e Near pagam salários altos por engenheiros especializados em contratos seguros e em motores de consensus. Sui aposta no carisma da equipe fundadora e no apoio de grants, mas terá de acelerar a descentralização para manter o ecossistema vibrante.

Palavras finais

Sui já provou que não é hype passageiro. O design diferenciado, o compromisso em escalar experiências de consumo e o pedigree técnico do time colocam o projeto entre os poucos que realmente ameaçam a hegemonia das redes líderes.

O caminho à frente, entretanto, exige execução impecável, comunicação transparente sobre desbloqueios e uma corrida constante para atrair casos de uso que sobrevivam fora da bolha cripto. Se entregar esses pontos, Sui tem tudo para ocupar posição de destaque no portfólio de investidores que acreditam numa internet nativamente on-chain.

Aniversário 8 anos da Binance